segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O que fazer quando um protestante bater a sua porta

Provavelmente isto já ocorreu com você. Alguém bate a porta, quando você abre, há uma pessoa simpática, com um grande sorriso, uma Bíblia aberta, e um arsenal de questões com o objetivo de atacar, sutilmente, a doutrina da Igreja Católica. Ou você, passando pelo centro de sua cidade, foi parado por alguém que lhe perguntou: "você está salvo?", ou ainda, ao sair da Missa, encontrou pessoas que distribuíam panfletos opondo crenças católicas e debatendo com as pessoas.


Se você entrar na discussão, parece que não vai a lugar algum. Você termina frustrado, parecendo que ninguém se convenceu do que você disse. As outras pessoas continuam andando, aparentemente com mais dúvidas sobre o catolicismo do que antes. Você sabe que não foi muito bem nesse episódio.

O importante é que saber como debater é tão importante como saber sobre o quê debater. Se não dispuser de alguma técnica especial, todo o conhecimento do mundo não adiantará nada no seu diálogo. Se você for um dicionário de teologia ambulante, mas se não souber como manejar uma boa discussão, você está perdendo o seu tempo. Também não é suficiente apenas ter uma boa conversa. Isto não disfarça a ignorância histórica ou doutrinal. Para ser um bom apologista, você precisa de dedicação e de conteúdo.

Escritura e oração

Conheça a Bíblia. Não importa o quanto você esteja bem preparado, não importa o quanto você acha que conhece as doutrinas da Igreja. Você precisa conhecer a Bíblia para enfrentar os fundamentalistas (claro, você tem necessidade da palavra de Deus não somente para debater com os protestantes).

Concentre-se no Novo Testamento, sem desconsiderar o Antigo. Não há necessidade de decorar vários versículos bíblicos como fazem os fundamentalistas, mas você precisa adquirir um conhecimento geral de toda a Bíblia. Você precisa se familiarizar, principalmente, com os Evangelhos ? se você não conhece a história de Jesus Cristo, você está em apuros. Frank Sheed diz o seguinte: "o apologista católico que não mergulha nos Evangelhos é a própria anomalia, e seu trabalho está condenado à aridez".

Os Evangelhos são curtos o suficiente para serem lidos em uma semana. Leia-os várias vezes antes de iniciar qualquer coisa ? e continue lendo-os regularmente. Não deixe de ler os demais livros da Bíblia (muitos fundamentalistas fazem isso, e perdem-se no contexto da Escritura), mas eles devem ser a base para as demais leituras.

Tenha, também, uma vida de oração. Uma boa forma de fazer isso é a leitura meditativa sobre a Bíblia. Leia devagar, sente-se, pense.

A oração é essencial na conquista de convertidos. Em seu coração, reze antes de um debate, durante e após ele. É importante saber o nome da pessoa com que se está debatendo, para que você possa orar por ele também. É natural para o homem medir o sucesso em uma discussão pelo quanto o outro mudou de idéia. Mas, na realidade, "as maiores coisas da terra são feitas dentro do coração de pessoas de fé" (São Luis de Montfort).

Técnica

Em debates, nunca tenha receio de reconhecer sua ignorância. Se você não souber como responder a algo, diga. Você sobreviverá, e também o seu ego. As respostas que você der sobre outros assuntos serão levadas mais a sério se as pessoas com quem você conversar virem que você não está tentando os enganar durante o debate (pena que muitos protestantes não saber perceber isso).

Entretanto, não deixe perguntas sem resposta. Diga à pessoa que esta questão é muito bem formulada, e que você estará lhe respondendo em uma semana. Então vá estudar e traga as respostas que você prometeu. Este método é mais eficaz que dar de ombros e dar qualquer resposta que nem a você convenceria.

Você tem de ser inteiramente honesto. Nunca torne as doutrinas maiores ou menores do que elas realmente são. Não evite casos difíceis, e não suavize doutrinas somente para agradar seus oponentes. Não há necessidade de reduzir a dificuldade de verdades difíceis. Fale sobre as doutrinas como elas verdadeiramente são. Se você somente consegue dar uma pequena explicação sobre a Real Presença, você não está preparado o suficiente para defendê-la. Admitir isso (ao menos para você mesmo), então faça seu trabalho. Um embaraço hoje pode ser o motivo para você se tornar um melhor apologista no futuro. Quando questionado sobre a história da Igreja, não deixe de conhecê-la. Não esconda fatos, não seja falso. Não há necessidade disto. Coloque as coisas todas no contexto, e relembre que a Bíblia ensina que, enquanto a Igreja jamais poderá ser derrotada pelo mal (Mt 16,18), seus membros incluem tanto santos quanto pecadores (At 20,29).

Cuidado com a língua

Sarcasmo nunca é bom. Evite-o, mesmo quando o seu oponente se baseia nele. Quando fazem isso, suas consciências lhes seguirão mais tarde (se a tiverem). Não lhes dê justificativa para tal por rebater sarcasmos com outros.

Lembrar que Deus resiste aos orgulhosos: "Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da verdade" (2Tm 2,24-25).

Familiarize-se com literatura anti-católica. Leia quais são os principais tópicos: a Bíblia como única regra de fé, a justificação somente pela fé, a Missa, a oração à Maria e aos santos, e outros mais. Veja como os argumentos, sejam fracos como sejam, são manuseados. Você perceberá que os materiais anti-católicos não são acurados, mas se você não souber respondê-los, tome notas e estude.

Quando argumentar, seja modesto em suas expectativas. Não espero conversões imediatas; elas não são processos do dia para noite (ao menos as verdadeiras). Saiba de seu sucesso quando seu oponente reconhece que houve uma resposta católica plausível para cara ponto abordado (mesmo que ele não as aceite). Será uma vitória apenas em saber que um anti-católico repensou seus conceitos.

Evite termos técnicos. Mesmo católicos não entendem o que é a "transubstanciação", "imaculada conceição", "mediatrix" e "mérito". Por outro lado, não seja monossilábico. Simplificar é reduzir o valor de pontos importantes; o que é igualmente ruim. Tente falar sobre as doutrinas em linguagem compreensível aos seus oponentes. Mas não reduza a dificuldade nem o valor das doutrinas apenas para ser simpático ao oponente ou ao ouvinte/leitor.

Tente colocar uma doutrina e suas relações com outras. É importante ver a Igreja como um todo.

Evite citações de versos. Isto pouco ajuda. Você precisa possuir alguma perspectiva ? e também os seus oponentes. Comece o debate com um plano traçado, saiba quais serão os pontos principais e leve-os adiante.

O tópico mais importante para se debater é sobre a autoridade: porque você acredita, e porque eu acreditaria em você? Havendo milhares de denominações protestantes, todos proclamando-se a verdadeira representação do cristianismo e a total assistência do Espírito Santo, porque a sua igreja ou o seu pastor são diferentes?

Os fundamentalistas confiam em algumas passagens que acreditam derrubar o catolicismo. Tome a iniciativa. Não os deixe fazer todas as perguntas. Pergunte também, e aborde diretamente as fraquezas do protestantismo.

Explique o que puder

Não debata para vencer. Você pode "vencer", ainda que leve pessoas para fora da Igreja. Debata para explicar. Mostre aos fundamentalistas a doutrina católica como ela é, e não como eles pensam que é. Quer dizer, reorientá-los, dar uma nova chance de rever seus conceitos. Lembre que eles crêem firmemente retirar todas as suas doutrinas da Bíblia. Na verdade a Bíblia é usada para dar razão a doutrinas pré-formuladas. Possuem suas próprias "tradições", que é a interpretação bíblica do seu pastor ou fundador (para muitos fundamentalistas, seu pastor é o seu papa. Muitos, quando questionados sobre pontos difíceis, não recorrem à Bíblia para descobrir as respostas, mas dizem "vamos perguntar ao pastor").

Não importa quantos versos memorizam, os fundamentalistas tomam a Bíblia de forma seletiva. Conhecem pouco sobre história da Igreja, e poucos são doutos em teologia. Muitos não sabem o que é um catecismo (talvez nem saibam que isso existe). Você deve demonstrar uma visão ampla. Se o assunto é interpretação, tome um bom comentário e estude, mas também tome os Padres da Igreja e leia o que eles entenderam e ensinaram sobre o assunto.

Diga aos seus oponentes que você faz isto porque seria incoerente que as pessoas que escreveram quando a Igreja era jovem e as memórias de Cristo estavam ainda ressoando na memória, reportaram doutrinas erradas e heréticas. Se os primeiros cristãos garantiram que um sacerdócio ministerial foi estabelecido por Cristo (que na verdade fez), este fato é um argumento forte para o sacerdócio na nova aliança. Se os escritores de alguns anos após Cristo mencionaram a Real Presença (que na verdade fizeram), isto fala a favor da interpretação católica de João 6. E assim por diante.

Não confunda termos

Conheça os termos usados pelos fundamentalistas. Você pode perder muito tempo discutindo dois assuntos diferentes usando a mesma terminologia. Por exemplo, vejamos o termo fé. Para os católicos, o termo significa aceitar uma verdade revelada (doutrina) apenas pela Palavra de Deus. Isto significa fé teológica ou confessional. Mas para os fundamentalistas, fé é confiar nas promessas de Cristo. Esta é a fé ?fiducial?.

Tradição é um outro termo confuso, assim como inspiração e infalibilidade. Veja o que os fundamentalistas entendem sobre estes termos e compare-os com a definição católica. Se você não definir os termos, os protestantes não vão entender seus argumentos. Não vá pensando que tudo o que parece na verdade é. Descubra o que seus oponentes estão querendo dizer. Tenha paciência.

Os fundamentalistas costumam dizer: "iniciaremos o debate admitindo que a Bíblia é a única regra de fé do cristão". Na verdade significa dizer: "vamos admitir que a Igreja não possui autoridade alguma; todas as respostas para questões de fé são claramente encontradas na Bíblia". Não concorde com isso. Não é verdade. Em resposta, pergunte ao seu oponente: "onde a Bíblia diz que ela deve ser tomada como única regra de fé?". A Bíblia silencia quanto a isso. Na verdade ela nega esta doutrina (cf. 1 Cor. 11:2, 2 Ts. 2:15, 2 Tm. 2:2, 2 Pd. 1:20, 3:15-16), mas você deve conhecer os versos para citar sua prova.

Discuta sobre a história da Bíblia. É preciso deixar claro que foi a Igreja quem formou a Bíblia, não o contrário. A Bíblia não apareceu pronta. Note, também, que o Novo Testamento não é um catecismo. Não foi escrito para pessoas que já eram cristãs, por isso não se pode pretender ser considerada única fonte de ensino religioso. Nos tempos primitivos, o ensino era oral e protegido pela autoridade da Igreja, que também decidiu quais os livros que deveriam constar na Bíblia, e quais os que não deveriam.

Alguns erros

O bispo Fulton Sheen certa vez escreveu que poucas pessoas odeiam a Igreja Católica, mas milhões de pessoas odeiam o que eles acham ser a Igreja Católica. Você precisa mostrar aos fundamentalistas o que a Igreja de fato é.

Discuta um tópico por vez; devagar; aborde-o de vários ângulos, e não deixe a discussão desviar para outros assuntos, senão você se perderá na argumentação e seu esforço não adiantará nada. Não pense que os protestantes sabem o que você entende mesmo sobre pontos simples, como missa, alma e revelação. Se eles sabem, provavelmente não sabem o que a Igreja ensina sobre estes termos. Você deve falar com eles da forma como falaria sobre o catolicismo para um católico não evangelizado.

Lembrar que o conhecimento deles sobre a doutrina da Igreja é baseada principalmente no que ouvem nos cultos ou o que lêem em um livro ou dois, não-católicos. Debatem com boas intenções, mas são desinformados. Mas a culpa não é só deles. Eles confiam nas fontes que possuem, mas agora devem aprender que há mais a considerar.

Lembrar, também, que a fé é um dom. Muitos convertidos ao catolicismo dizem que a doutrina foi um fator importante para a conversão, mas também a evidência de ver católicos que vivem suas vidas de acordo com a fé que professam. "Portanto, não temais as suas ameaças e não vos turbeis. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito" (1Pd 3,15).

Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro.

A guerra entre a Igreja e a Maçonaria em Pernambuco no séc. XIX – parte 1


Publicado em Artigos MontfortHistória
Iniciamos hoje a publicação do estudo de nosso amigo Gustavo V. de Andrade, a respeito da Questão Religiosa que opôs a Igreja à Maçonaria no Brasil Monárquico do século XIX, culminando com o sacrifício do heroico bispo pernambucano Dom Vital.

Prefácio

“Nihil novi sub sole” (Não há nada de novo sob o sol) Ec, 1:9

Todas as idéias e doutrinas possíveis resumem-se a duas: a obediência a Deus e a desobediência. Não há heresia que não diga “Não servirei”, assim como não há reto agir que não diga “Faça-se em mim segundo a Vossa Palavra”. As revoluções e disputas intensas que tiveram lugar em Pernambuco no século XIX nada mais são que a velha revolta original com as novas roupas do tempo. Para bem entender como se chegou ao limite da disputa hoje chamada de “Questão Religiosa”, na qual o heróico bispo Dom Vital ousou enfrentar as forças maçônicas que se infiltravam na Igreja de Cristo, é preciso observar o movimento maior das ondas no mar revoltoso. Todas as revoluções não passaram de batalhas nesta guerra maior, ainda inconclusa, mas que para uma compreensão histórica restringiremos ao seu momento mais caudaloso. Começaremos, então, a narrativa dos fatos a partir de acontecimentos dos séculos antecedentes ao de nosso enfoque, para dar a perceber como se ocultou no tempo a semente da desobediência, a semente da escravidão ao pecado, e como dela brotaram os frutos da perdição.

Parte I

Da Missão ao Oratório

Chegavam a Portugal relatos da desolação resultante do período de ocupação holandesa no Brasil. Em Pernambuco, casa de civis assaltadas e depredadas, assassinato de inocentes, estupros na ordem do dia, jovens obrigados a frequentar as escolas sectárias protestantes, sacerdotes exilados para as regiões de colonização espanhola na América ou perseguidos até buscarem abrigo nos sertões desérticos, igrejas demolidas e profanadas, altares violados, imagens incineradas e toda sorte de objetos sacros destinados a uso profano. Num desses relatos conta-se que “os novos cristãos que fugindo para os sertões deixaram a fé e tornando às trevas da idolatria perseveravam na mesma cegueira; muitos portugueses que residiam na Capitania viviam mui esquecidos das obrigações de cristãos, entregues a todo o gênero de vícios e sem frequência de sacramentos. Faltavam párocos que catequizassem os índios e os trouxessem ao conhecimento do verdadeiro Deus; havia também grande falta de ministros evangélicos que pregassem nas Aldeias e lugares distantes; e finalmente era geral a ignorância da Doutrina Cristã especialmente nos meninos e gente mais rude, o que tudo cedia em grave dano da Cristandade”.

No Natal do ano de 1659, depois de ordenados e tendo passado um período de recolhimento nos Açores, rezaram suas primeiras missas os padres João Duarte do Sacramento e João Roriz Victória, ambos discípulos do Pe. Bartolomeu de Quental, pregador da Capela Real Portuguesa. De tal modo conduzia o Pe. Quental à vida religiosa na corte portuguesa que em muito mais parecia um mosteiro que propriamente uma corte, tendo de fato várias damas seguido a vocação religiosa. Foi ao tomar conhecimento da triste realidade da colônia lusa, que há pouco bravamente tratava de expulsar os holandeses, que o Pe. Quental decidiu-se pela necessidade missionária dessas terras, chegando a cogitar ele mesmo ir a Pernambuco. Por circunstâncias diversas, depois de uma longa e profunda meditação, resolveu o pregador da Capela Real Portuguesa enviar alguns de seus discípulos a Pernambuco. O escolhido por chefe da expedição catequética foi o Pe. Sacramento, desde muito jovem credenciário da corte (na prática, algo como um estagiário de sacristão), de grandes virtudes e fama de santidade, a quem muito apreciava a Rainha D. Luiza de Gusmões.



Padre João Duarte do Sacramento

A missão inicialmente contava com quatro sacerdotes, mas o grande fervor apostólico dos missionários portugueses logo fez crescer o número de jovens e rapazes que desejavam seguir tão bela vocação em terras pernambucanas. Como à época o bispo mais próximo residia na Bahia se fazia muito difícil a ordenação daqueles brasileiros que se uniram aos quatro padres. Então, todos os que se decidiam por seguir aos missionários permaneciam como irmãos consagrados, seja ajudando aos padres em suas muitas e constantes viagens, seja residindo em aldeias e tribos como responsáveis pela formação e zelo das almas na ausência dos sacerdotes.

A fim de facilitar o trabalho missionário o Pe. Sacramento e seus companheiros passaram a dispor de um local de retiro, um convento, se assim o podemos chamar, extremamente miserável, cuja diminuta capelinha, de tão pequena, do chão se podia facilmente tocar o teto. Formularam estatutos os quais desejavam seguir e fazer aprovar. Eram absurdamente rigorosos esses estatutos, pois além das regras que deveriam guardar durante as missões eram ordenados ainda quando na casa a guardar perpétuo silêncio, andar sempre descalços, jejuar por todo o ano, passando a pão e água três vezes por semana, não ter nada em suas celas além de um banquinho, uma tábua pregada à parede, uma barra com uma esteira e uma manta, não podiam tomar dinheiro, ainda que das Missas, enfim um grande número de fardos para ombros humanos. Apesar disso nada obstou o cabido da Bahia aos estatutos, passando o pequeno grupo de religiosos a denominar-se os Padres da Recoleta de Santo Amaro.

O Pe. João Roriz Victória foi o encarregado de representar à pequena comunidade religiosa junto à Santa Sé no intuito de ter os estatutos aprovados pelo Papa. Ao passar por Lisboa foi também o Pe. Victória confiado como representante do Pe. Quental diante do Sumo Pontífice para que obtivesse a aprovação dos estatutos que se havia formulado para uma comunidade de sacerdotes em Lisboa (com rigores bem próximos daqueles formulados pelos padres missionários). Obviamente a Santa Sé recusou os estatutos como se apresentavam devido às exigências por demais escrupulosas. Desejando, no entanto, ambos os institutos viverem em comunidade sem proferirem os votos de obediência, castidade e pobreza, concedeu-lhes o Papa Clemente X, como regra a ser seguida, o regimento do Oratório de S. Filipe Néri de Roma.

Dificilmente se poderia transplantar uma regra diversa e mais branda sobre uma já existente e rigorosa sem empecilhos, essa obviedade foi percebida pelo Pe. Quental, superior do Oratório de Lisboa. Foi obtido então do Papa, para ambas as novas congregações do Oratório, regras mais adaptadas aos hábitos e costumes dos padres lusitanos. Os oratorianos brasileiros, no entanto, rejeitaram os novos estatutos, vendo tal ação como uma ingerência portuguesa, preferindo aceitar integralmente a regra apresentada pelo Santo Padre inicialmente, aquela do Oratório de Roma.

A fim de melhor viver a nova regra que lhes foi apresentada pela Santa Sé os Oratorianos iniciaram a construção de um grande convento (posteriormente utilizado como alfândega do porto e atualmente como shopping center), bem como uma igreja em Recife, ainda então comarca subordinada a Olinda. A escolha de localidade desde o início não foi vista com bons olhos pela nobiliarquia olindense, mas contavam os oratorianos com o favorecimento da monarquia portuguesa.

Igreja da Madre de Deus, construída pelos Oratorianos no Recife

Ocupado com as muitas funções que exercia a encargo do bispo, o Pe. Sacramento não pôde vigiar com grande zelo para evitar os problemas que o Pe. Quental já antevira. No Oratório fundado em Pernambuco não se tratou nem de seguir aos estatutos primeiros, aprovados pelo cabido da Bahia, nem aos estatutos do Oratório de Roma, seguindo-se uma miscelânea, favorecendo no que se pudesse à frouxidão dos costumes e da moral. Como solução pensou-se na união com o Oratório de Lisboa e a adoção de seus estatutos adaptados.

Após um longo trabalho de convencimento e tentativas frustradas de integração com o Oratório de Lisboa o Pe. Duarte do Sacramento veio a falecer pouco depois de escolhido como 2º bispo da diocese de Olinda. Seu sucessor no Oratório o Pe. Luiz Ribeiro obteve a adoção dos estatutos lisbonenses em Pernambuco. No entanto, um grupo de padres descontentes com a perda de alguns benefícios dos quais gozavam se insubordinaram realizando um verdadeiro cisma na comunidade. Os rebeldes foram auxiliados por frades franciscanos e carmelitas descalços que, além de abrigo, lhes prestaram ajuda jurídica numa batalha travada entre um monge beneditino, juiz canônico, e os bispos que se sucederam na diocese. O povo simples e ignorante acabou por apoiar as ações do monge desvairado que sentenciava excomunhões como se fossem cartões amarelos num jogo de futebol. A situação só foi revertida e pacificada em 1701 por um Motu Proprio do Papa dando razão ao bispo e aos oratorianos que desejavam a união com a casa de Lisboa.

Tristemente o vínculo formado entre os Oratórios foi a abertura para que as várias heresias que tomaram conta da corte portuguesa nos anos que se seguiram encontrassem o caminho rumo a Pernambuco e nesta capitania fossem fontes das várias revoluções do século XIX.

Fonte: Montfort